Começo citando Elisa Lucinda, poetisa, atriz e mulher sensível que diz: "Parem de falar mal da rotina...parem com esta sina anunciada de que tudo que vai mal se repete. Parece, mas não se repete, não pode repetir, é impossível, o ser é outro, o dia é outro, a hora é outra, ninguém é tão exato." E lendo isso repetidas vezes sinto no ar a pergunta: somos nós que criamos a rotina para organizarmos nossos dias ou a criamos porque não saberíamos viver sem os parâmetros que ela nos dá? Estou aqui falando da rotina externa, daquela em que se levanta pela manhã já sabendo o que fazer o resto do dia e que muitas pessoas não admitem que nada saia de seu controle. Coisa chata isso. Acredito que quem quer o controle sobre todas as horas para viver é porque não tem domínio sobre si mesmo. Exige-se demais e das pessoas também. Como posso basear minha vida na rotina se existem outras pessoas com as quais compartilho meu dia a dia? As pessoas mudam...Ninguém nos impõe coisa nenhuma, a nossa rotina pode ser pesada ou não dependendo de como gerenciamos a nossa vida, de como vemos os acontecimentos, as pessoas e o imprevisível. Planejamos, mas não acontece. Não queremos e aí acontece. Passamos a vida criando abismos e encontros e o tempo só existe porque foram criados calendários, relógios que interferem ( e ferem ) e em meio a tudo isso nos vimos muitas vezes obrigados a cumprir compromissos que nos entendiam e fazem o nosso dia virar a mais tenebrosa das noites. Sinto saudades de uma alegria que faz parte de um mundo aonde eu só tinha esperanças e se elas estavam ou não incluídas na minha rotina pouco importava. Havia esperança, confiança, prazer em se viver, só. Hoje, as pessoas se espremem entre o que tenho que fazer e o que não posso fazer. Comum ouvirmos: " o tempo está passando depressa demais, não tenho mais tempo para nada, já estamos chegando no final de semana de novo" e eu me ponho a pensar: e daí? Qual é o problema? O tempo passa muito depressa ou somos nós que desperdiçamos os minutos tentando cumprir regras previamente estabelecidas e na maioria das vezes não nos faz feliz? Por que não mudar a nossa rotina interior também? Dar um basta a tantas emoções que nos fazem mal, refletir sobre nossa felicidade, colocar os sentimentos em ordem sem a preocupação se é noite, dia, sábado, março, se tem sol lá fora. A rotina impõe, a criação de novos caminhos e com eles novas alternativas nos retira do massacre que é o "ter" que fazer. Por que não admitimos, pelo menos às vezes, sermos ou fazermos coisas que nunca fizemos? Medo de nos perdermos no caminho de volta? Mas que volta se a vida é só seguir em frente. A volta necessária e que deveria ser diária, é a de estarmos dentro de nós buscando novidades, novas maneiras de sorrir, de encararmos a vida, a própria rotina, nossos sentimentos, nossas preocupações que nos roubam grandes momentos de alegria. Claro que muitas pessoas, a maioria delas, não pode largar emprego, família, responsabilidades assumidas e sair por aí gritando: "abaixo a rotina", mas dentro do seu próprio mundo poderia criar novos espaços que o dia a dia não conseguisse transformar em fardo. Complicado mas não impossível. A liberdade vive, dança e canta dentro de nós e não no que a rotina nos impõe. Podemos ser livres apesar de tudo porque temos um mundo interior que anseia por tantas coisas não realizadas em nome de uma ordem que emana de ninguém, que foi criada e é vivida para que nada saia do controle. Podemos ter festa todos os dias. Podemos ter uma vida sensasional e fazermos as festas acontecerem dentro de nós mesmos. Vamos remexer e limpar lá dentro de nós o vai e vem tão absurdamente certo! Mesmo seguindo rotinas deveríamos nos livrar do descontentamento que nos obriga. Darmos algumas paradas para ganharmos tempo. Vivermos sem culpa, ter um pouco da noite, do dia, da madrugada ainda que isso possa ser feito sem que mexamos em nada a não ser dentro de nós mesmos, enfrentendo dores sem perdermos a poesia e me reportando novamente à poetisa": certas repetições são sublimes, são nossos óbvios de estimação". Vivamos a rotina, mas mudemos de calçada.
terça-feira, 23 de março de 2010
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