Nada contra o carnaval. Tudo contra essa imensa tragédia que se abateu sobre as cidades do Rio de Janeiro, centro de toda a imensa festa em que se comemora a alegria do povo brasileiro. Alegria? Não consigo entender e nem tento explicações, apenas converso comigo mesma porque me sinto perplexa diante da imensa catástrofe que atingiu famílias, cidades, sonhos. Agora ainda assisti na televisão os preparativos para o carnaval e cheguei mesmo a duvidar do que assistia. É claro que o mundo não vai parar por causa de "apenas" mais um imenso temporal que destruiu tudo o que encontrou pela frente, mas ao mesmo tempo me pergunto: comemorar o que? vestir uma linda fantasia e desfilar o luxo quando a desgraça, o caos, o choro, estão ali, bem ao lado de tudo isso? cantar tres dias e noites quando a voz de tantos desamparados ainda ecoam e ecoarão ainda por muito tempo em cada canto desse país? Sempre gostei, aproveitei e "pulei"muitos carnavais, mas esse ano eu teria vergonha de sair por aí pulando de alegria enquanto pessoas estão passando por uma imensa calamidade que, por certo, faria meu riso sem nenhum sentido.São pessoas que nem conheço, que jamais vi e que não fazem parte da minha vida. Mas são pessoas. Seres humanos arrassados, perdidos, devastados em sua dignidade, seu caminho, suas esperanças. São crianças sem seus pais, são pais sem seus filhos, são famílias que se desintegraram pela força da natureza irada e pela falta da devida atenção de um governo (?) que poderia ter sim, minimizado todo esse sofrimento. Carnaval? Não faz sentido para mim. É dar brilho a uma festa que tantos esperam um ano inteiro, mas também é fazer com que essas pessoas passem na avenida como um bloco de palhaços que nem graça tem. Tanto brilho, luxo e luz e ao redor o apagão, a sujeira, a falta de tudo. É, as pessoas se perdem em meio aos blocos carnavalescos e outras tantas apenas tentam apenas achar um local para não se sentirem perdidos, para se abrigar. Dramático? Não, infelizmente é a verdade. Não adianta buscarmos culpados, responsáveis, autoridades. O que adiantaria não foi feito: respeito à natureza, prevenção, educação do povo para estar preparado para essas situações. E eu ainda me pergunto: quanto tempo ainda vai demorar para que a vida dessa população volte ao normal? Talvez tempo demais para que consigam amenizar a dor que sofreram. O que doi mesmo é a falta de respeito à dor de quem não tem lugar para abrigar sua própria dor. Mas, é assim mesmo. Como o país do Carnaval deixará de comemorar a grande festa? Para que? Para quem? A minha palavra, a minha indignação, a minha perplexidade são minhas e talvez de algumas pessoas que como eu sentem a dor profunda de quem não consegue nem ter tempo de chorar a própria dor porque existem dores maiores do que a que está sentido. Pessoas que estão socorrendo quem está sofrendo mais. "Quanto riso...oh! quanta alegria..." mais de 190 milhões de palhaços no salão! Muitas vozes cantarão esse carnaval, mas a minha preferirá calar-se diante de tanto descaso. É a própria população quem está se ajudando, tentando saciar a fome, a sede e as necessidades mais básicas para a sobrevivência de seu semelhante. Eu, com minhas próprias mãos, nada posso fazer diretamente, mas tento, dentro de mim, respeitar a dor, a tristeza e o choro de tantos que estão passando o estreito caminho do grande sofrimento de olhar em volta e só enxergar a desvatação. É só a minha voz, mas é a minha. Que venha o Carnaval com todo o seu luxo, pompa e alegria. Eu prefiro fazer de conta que moro em um país aonde se respeita, se considera e se ama o próximo. Comemoro silenciosamente a vida dos que conseguiram sobreviver e vão lutar para ter de volta o que se perdeu e lamento também, silenciosamente ,os que vão comemorar a ilusão de que nada aconteceu. Existe a multidão que comemora as vidas que se salvaram. Existe a outra, solitária sim,que comemora com fantasias a alienação de que tudo continua a brilhar mesmo depois de tres dias e noites de uma ilusão que se acaba. Quero acreditar que grande parte da população compartilha do que eu sinto e a outra parte não deixará de viver seu carnaval pelo que aconteceu de trágico. Só espero, sinceramente, que na grande avenida da folia chova muito em todos os dias da grande comemoração da festa do nada, do ninguém, de coisa nenhuma. Mais do que postar aqui a minha indignação deixo, pra mim mesma, a grande decepção de ver que não somos uma nação de verdade, mas apenas um amontoado de pessoas que vivem num mesmo país que alguém, algum dia, disse não ser um país sério (Charles de Gaulle - Presidente da França). E não é que o francês tinha razão. É , no mínimo,lamentável!
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È minha querida, no vai e vem da vida, aonde existe os encontros e a dura realidade dos desencontros pela fatalidade.
ResponderExcluirEnquanto centenas de milhares de pessoas se encontram com a "morte" que os arrancam inesperadamente da vida, tirando de todos os sonhos e alegrias.
Sinto profunda tristeza diante de toda tragédia,calamidade,descaso., sei lá!
Só sei que a desigualdade no mundo se alastra,enquanto os valores continuarem a ser invertidos, continuaremos vivendo em um mundo de profunda amargura e solidão.
Parabéns pela coragem eu compartilho contigo de todos esses sentimentos!
Que "DEUS" nos proteja.
bjs
Rose
Querida Cris,
ResponderExcluirPassando por aqui e ali, entrei em seu blog em 03 de janeiro de 2010.
E para minha surpresa alí voce já relata um tragédia de acontecimentos com as chuvas e com os descasos de nossos "Governates".
Se puder da um passada pela data e leia ok!
beijos
Rose