quinta-feira, 21 de outubro de 2010

...E a dama se despede!

Seu nome no palco da vida é Helena. Sempre achei muito bonito seu nome. Como uma mulher grega, enfrentou a batalha dos caminhos sem reclamar dos pesos, atribuições e desencontros. Era uma frágil mulher, mas de espírito forte e vida simples. Nasceu, cresceu e viveu em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Seus gestos suaves, sua fala mansa, seu olhar terno, faziam dela uma verdadeira lady. Parecia ter sempre vivido, estudado e frequentado os mais finos ambientes, as melhores escolas, os mais luxuosos salões. Seus olhos, muito azuis, transpareciam seu temperamento quieto, suas atitudes calmas, seu carinho por todos que com ela conviviam. Andava devagar, mas seus passos sempre iam ao encontro de alguma mão que estivesse estendida a espera de ajuda. Convivi, felizmente, por muito tempo com essa grande dama. Fina, educada, simples. Sua comida era deliciosa e o seu tempero inigualável. Sua casa simples parecia um castelo aos meus olhos de menina, adolescente e jovem. Era para a casa dela que eu ia passar minhas férias escolares e era sempre recebida como uma princesa. Passei lá, naquela cidade pequena, os melhores anos de minha vida de moça. Lá fiz amigos, dancei muitos carnavais, encontrei namorados, fiz pique-nique, andei pelas fazendas da região, fui a muitas festas, a muitas missas, e muitas vezes me pegava olhando a grande Serra que emoldurava aquela cidadezinha. Como era tudo tão perfeito! A casa dela era meu ponto de chegada e meu ponto de partida e de onde voltava sempre chorando por deixar lá tudo o que tinha vivido junto àquela gente tão querida. Ela fazia nossas fantasias de carnaval sempre com muita alegria, como se ela também fosse participar da festa. Já era viuva tão moça, mas se dedicava à vida em família como se junto a ela tivesse se formado um reino aonde ela conhecia cada um de seus súditos. Nada exigia. Eu acredito, hoje, que sua solidão era tamanha que bastava isso para que ela se completasse. Sózinha se completava e nos fazia sentir como se fossemos todos, cada um a seu modo, as pessoas mais importantes do mundo. É, ela tinha essa magia. Transformava o ambiente sem que para isso fosse necessário muitas falas, muitos gestos, muita agitação.Mal ouvíamos quando ela caminhava pela casa. Alegre, mas de uma alegria sutil, educada, comedida. Nos fazia rir muito e ria também com nossas bobagens de jovens. A casa, em época de férias, vivia repleta dos nossos jovens amigos e ela, como uma mãe zelosa, cuidava, participava e deixava que todos fossemos felizes. Ela também era a que fazia bolos, doces , bolachinhas para que, entre uma risada e outra, provássemos de seus dotes culinários. Minha tia Helena. Minha referência de mulher completa. Minha protagonista no palco da minha vida quando muito jovem. Inesquecível sua figura, seu carinho, seu pisar calmo em minha direção. Sua casa era seu mundo. Ali ela vestia todas as fantasias, ria todas as comédias, compunha suas melodias, e dançava o ritmo da vida, e jamais se retirava sem deixar um perfume de frescor no ar. Ela era leve. Nunca a vi irritada, nervosa, chateada.Claro, ela tinha seus estados de humor osciláveis, mas nunca deixava que isso contagiasse nosso descomprometimento com a vida, na época. Ela era e deixava ser. Minha querida Tia! A Tia Helena que não irá embora jamais da minha vida, viva eu quanto tempo viver! Hoje, ela se despediu do espetáculo da vida e como uma dama o fez sem barulho, sem alvoroço, sem pesar pelo que viveu. Deixa-nos, mas nunca irá se ausentar de nossos caminhos porque sua presença iluminada deixa todos nós com um pouco dessa luz! Hoje ela se despediu. Quieta.Calma.Tranquila. Deixou para nós a esperança que sempre vale a pena viver porque seu exemplo de vida foi seu melhor conselho. Um grande beijo tia Helena, vou amá-la sempre! As minhas lágrimas jamais traduziriam o meu enorme amor por você, minha grande dama. Que a luz continue a iluminar seus caminhos, agora em direção ao espetáculo final. Mas eu tenho certeza que seu brilho jamais se apagará, que seu texto não terá fim, que a cortina jamais se fechará para o grande espetáculo que é o seu imenso coração. A sua benção, tia Helena e que os anjos do céu saibam recebê-la com muita festa, muita alegria e muito amor. Acredite, eu jamais verei outra estrela como você. Para mim, esse grande palco que é a vida, jamais verá um olhar azul tão brilhante como o seu. Respeitosamente beijo suas mãos e te peço: abençoe-nos aonde quer que você esteja. Ate sempre,tia. Helena era seu nome. Um grande beijo, já com muita saudade.

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